Posts Tagged ‘Arthur Rimbaud’

Rimbaud para o Natal

2 Rimbaud download (3)Criei uma saudação ou cartão de Natal original, transcrevendo o trecho de “Matin” em Une Saison en Enfer:

Quand irons-nous, par delà les grèves et les monts, saluer la naissance du travail nouveau, la sagesse nouvelle, la fuite des tyrans et des démons, la fin de la superstition, adorer – les premiers! – Noël sur la terre!
Le chant des cieux, la marche des peuples! Esclaves, ne maudissons pas la vie.

Na tradução de Ivo Barroso em Arthur Rimbaud – Prosa poética:

Quando iremos afinal, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, para adorar – os primeiros! o Natal na terra!
O cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

Que venha esse Natal na terra.

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Poetas malditos e Piva: ensaio em Eutomia, e mais

Saiu meu ensaio, “Poetas malditos: de Baudelaire e Nerval a Piva” em Eutomia, o periódico on line editado por Sueli Cavendish, da Universidade Federal de Pernambuco. Está em:

http://www.repositorios.ufpe.br/revistas/index.php/EUTOMIA/article/view/244

Reparem que, no pé da página, tem botão para abrir o pdf. E no pdf tem botão para ‘tela cheia’. Portanto, cliquem no link, nos botões, e leiam o ensaio.

Em um evento universitário recente tratando desse tema, de considerável diversidade, um participante declarou que não há mais poetas malditos. Minha intenção, ao escrever o artigo, foi tentar especificar com maior clareza – através de algum deslocamento da sociologia para a literatura comparada – o que vêm a ser poetas malditos. Sustento que o uso dessa categoria é consistente ou apropriado, quando aplicado à linhagem que vem de Baudelaire e Nerval até Piva, passando (evidentemente) por Rimbaud. O ensaio também costura algumas pontas soltas em meu Um obscuro encanto, e prossegue observações em meu artigo sobre Rimbaud na revista Cult.

Evidentemente, o tema sobra. Em cursos sobre poetas malditos – o mais recente, na Casa das Rosas em 2010 – também examinei outros autores. Mas me parece que, desta vez, além de circunscrever a categoria, justificar seu uso e mostrar a raiz remota – xamanismo, mito de Orfeu – e ao mesmo tempo a contemporaneidade, contribuí para esclarecer a relação de Piva com Dante. E suas posições políticas mais recentes, o monarquismo (por décadas, declarou-se marxista), estranho à primeira vista, porém simbolicamente substancioso.

Haverá mais. Após escrever o artigo e dar palestra – esta: https://claudiowiller.wordpress.com/2013/06/24/palestra-em-diadema-poetas-malditos-e-piva/ – enxerguei motivos adicionais para o Inferno ser o best-seller da trilogia de Dante (notem bem, de Dante, e não desse deplorável contemporâneo) e despertar tamanha fascinação em românticos e neo-românticos rebeldes.

Já havia, a convite de Sueli, publicado poemas em Eutomia:

http://www.revistaeutomia.com.br/volumes/Ano4-Volume1/poesias/POEMASCLAUDIOWILLER.pdf

Este fim de semana saiu também artigo meu sobre Buñuel e religião, em Tertúlia, de Renato Alessandro dos Santos:

http://www.tertuliaonline.com.br/postagem/ver/326

Repito meu bordão preferido: haverá mais …! Publicarei uma pequena série sobre surrealismo e cinema.

Rimbaud para manifestantes

Incendeiam. Lembra-me Rimbaud. Citando, do meu artigo na Cult:

[…] sua adesão à Comuna de Paris, a sangrenta revolta de março a maio de 1871 da qual não conseguiu participar (menor de idade e viajando sem dinheiro, foi detido e mandado de volta para Charleville). Seus poemas mais militantes mostram que a Comuna atraía como destruição. “As mãos de Jeanne-Marie” elogia as petroleuses, mulheres que, nas últimas horas antes da ofensiva das tropas de Versalhes, munidas de querosene, puseram-se a incendiar prédios públicos, sedes de instituições, esperando que nada sobrasse para os ocupantes. Para ele, “nobres damas” que, com suas “Mãos sagradas, / em vosso punho, onde acolheis / Nossas bocas jamais saciadas, / Gritam grilhões de alvos anéis!” Em “A orgia parisiense ou Paris se repovoa”, Rimbaud reclamou da cidade voltar ao normal e a burguesia retomar seus afazeres: “O poeta irá tomar o pranto dos Infames, / Os ódios do Forçado, as queixas dos Malditos; / E as mulheres serão flageladas de amor. / Seus versos saltarão: Ei-los! Ei-los! bandidos!”. Poeta e bandido: para Rimbaud, sinônimos.”

Na “semana sangrenta”, final da Comuna, foram mais de 30.000 mortos – boa parte, execução sumária. As petroleuses, incendiárias, foram presas e maltratadas. O poema “As mãos de Jeanne-Marie” foi resgatado e publicado pela primeira vez só em 1919, pelos surrealistas, na revista Littérature dirigida por Breton e Aragon.

Não estou recomendando que toquem fogo. Isto aqui não é a Comuna de Paris (ainda). Achei a tradução de “As mãos de Jeanne-Marie”, de Ivo Barroso em um lugar chamado Imprimis. O original, acompanhado de interpretação, em http://abardel.free.fr/petite_anthologie/les_mains.htm . Meu artigo sobre Rimbaud em http://revistacult.uol.com.br/home/2013/04/o-rebelde/

 As mãos de Jeanne-Marie

Arthur Rimbaud

Jeanne-Marie tem a mão forte,

Escuras mãos que o sol atana,

Pálida mão qual mão de morte.

_ Serão acaso as mãos de Juana? 

 

Terão tomado as cores cruas

Do charco da sensualidade?

Ou mergulharam-se nas luas

Dos lagos da serenidade? 

 

Beberam céus bárbaros, brutos,

Calmas, em joelhos deslumbrantes?

Terão enrolado charutos

Ou traficado com diamantes? 

 

Nos pés ardentes das Madonas

Fanaram flores de ouro informe?

Negro sangrar das beladonas

Em suas palmas surge e dorme. 

 

Mãos caçadoras de apiários

Onde aurorais azuis serenos

Zumbem, em busca de nectários?

Mãos que decantam os venenos? 

 

Que Sonho as fez assim contritas

Em suas pandiculações?

Sonho das Ásias inauditas,

Dos Khenghavares ou dos Siões? 

 

Mãos que jamais vendem laranjas,

Nem que dos deuses brunem sólios;

Que não lavaram nunca em sanjas

As fraldas de nenéns sem olhos. 

 

Não têm das primas mãos finas

Nem da operária a rude tez

Que, em fornos fétidos de usinas,

Rescalda um sol ébrio de pez. 

 

São curvadoras de dorsais,

Que de fazer o bem têm calo,

Mais do que as máquinas, fatais,

E fortes, mais do que um cavalo!  

 

Ardendo em fornalhas acesas

E a sacudir todos os seus tons.

Canta essa carne Marselhesas

E jamais canta os Eleisons! 

 

Podem vos enforcar, madames

Más, e esmagar vossas mãos ruins,

Ó nobres damas, mãos infames

Cheias de branco e carmins. 

 

O seu clarão de amor constrange

Ovelhas longe em seus redis!

O sol depõe-lhe na falange

O brilho rubro de rubis! 

 

Uma nódoa de populaça

Qual seio antigo as anegreja

O dorso dessas mãos é a praça

Que um revoltado beija! 

 

Desfaleceram, sonhadoras,

Ao sol do amor que então surgia

No bronze das metralhadoras

Pela Paris que se insurgia! 

 

Ah! Que por vezes, Mãos sagradas,

Em vosso punho, onde acolheis

Nossas bocas jamais saciadas,

Gritam grilhões de alvos anéis! 

 

E há um Sobressalto que constrange

Os nossos seres, quando os medos

Querem vos consumir, mãos de anjos,

Fazendo-vos sangrar os dedos!

Rimbaud para censores, 2

Atendendo a meu pedido na postagem precedente, Leonardo Morais mandou-me “Os stupra”. Rimbaud e sexo selvagem – tem de tudo. Lembrando: esses sonetos circularam só a partir de 1923, divulgados, como não podia deixar de ser, por André Breton e Louis Aragon na revista Littérature. O terceiro dos poemas também foi publicado como “Soneto do buraco do cu” (saiu com esse título, pouco tempo atrás, no jornal Folha de S. Paulo). Sua autoria chegou a ser posta em dúvida. Mas são indiscutivelmente de Rimbaud, embora tenham a mão de Verlaine (que criou bastante poesia obscena) e outro colega. Em um modo mais cifrado, Rimbaud relatou algo semelhante, um furor erótico, na prosa poética “Bottom”, de Iluminações. A tradução é de Ivo Barroso, conforme Arthur Rimbaud – Poesia completa, ed. Topbooks. Espero que Ivo não se incomode com a difusão não-autorizada, mas é por uma boa causa: provocar censores – além de corrigir o que chamei de viés estetizante na divulgação de Rimbaud no meio digital.

  1. OS STUPRA

Outrora os animais cobriam-se em carreira,
As glandes a pingar de sangue e de excremento
Expunham nossos pais o membro corpulento
No vinco da braguilha e no ancho da algibeira.

Na Idade Média, para a fêmea – anjo ou rameira -,
Se impunha o latagão de sólido argumento;
Mesmo um Kléber, com seu culote que amaneira
Talvez demais, devia honrar seu documento.

Ao mamífero mais fogoso o homem igualo:
O tamanho de seu membro espanta-nos, sem
Razão; mas soa uma hora estéril: o cavalo

E o boi refreiam seus instintos; e ninguém
Ousa mais exibir seu orgulhoso falo
Nos bosques onde a infância em chusma se entretém.

***

Nossas nádegas não são as delas. Ao cabo,
Vi várias se aliviando atrás de alguma moita.
E, nesses banhos nus, da meninada afoita
Apreciava o formato e o feitio do rabo.

Mais firme, e, com frequência esmaecido, aflora
Relevos naturais que uma touceira veda
De pêlos; nelas, só na prega encantadora
É que se desabrocha a longa e espessa seda.

De uma engenhosidade e um toque extraordinários
Que só se pode ver nos anjos dos sacrários,
Imita uma bochecha a que um sorriso afunda.

Oh! estar assim, nus, alegres e de bruços,
Voltada a face para essa porção jucunda
E libertos os dois a murmurar soluços?

***

Franzida e obscura flor, como um cravo violeta,
Respira, humimldemente anichado na turva
Relva úmida de amor que segue a doce curva
Das náfegas até ao coração da greta.

Filamentos iguais a lágrimas de leite
Choraram sob o vento ingrato que as descarna
E as impele através de coágulos de marna
Para enfim se perder na rampa do deleite.

Meu sonho tanta vez se achecgou a essa venta;
Do coito material, minha alma ciumenta
Fez dele um lacrimal e um ninho de gemidos.

É a oliva extasiada e a flauta embaladora,
O tubo pelo qual desce o maná de outrora,
Canaã feminil dos mostos escondidos.

[Arthur Rimbaud, “Poesia completa”. Trad. Ivo Barroso.]