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Os índios brasileiros e as declarações do novo Ministro da Justiça

(índios Kalapalo fotografados por mim em 1967 no Parque do Xingu)

Estas declarações, de que “terra não enche barriga”, etc:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/03/1865209-ministro-da-justica-critica-indios-e-diz-que-terra-nao-enche-barriga.shtml?cmpid=compfb

Há um equívoco no modo como a questão vem sendo abordada por representantes do agronegócio e de toda sorte de invasores. Não se trata apenas de defender “terras”, porém os direitos de índios serem índios. Há um inestimável patrimônio simbólico, imaterial, em jogo. Já havia citado esta passagem de Octavio Paz, aqui, neste blog:

[…] é preciso defender as sociedades tradicionais se quisermos defender a diversidade. Todos vemos que isso é dificílimo, mas a outra possibilidade é sombria: uma derrocada geral da civilização, diante da qual o fim do mundo antigo, entre os séculos V e VII, teria sido apenas um modesto “ensaio geral” do desastre. Dessa perspectiva, a preservação da pluralidade e das diferenças dos grupos e indivíduos é uma defesa preventiva. A extinção de cada sociedade marginal e de cada diferença étnica e cultural significa a extinção de uma possibilidade de sobrevivência da espécie inteira. Com cada sociedade que desaparece, destruída ou devorada pela civilização industrial, desaparece uma possibilidade do homem – não só de um passado e um presente, mas um futuro. A história havia sido, até agora, plural: diversas visões do homem, cada qual com uma visão distinta de seu passado e de seu futuro. Preservar essa diversidade é preservar a pluralidade de futuros, isto é, a vida mesma.

É claro que observações dessa ordem não sensibilizam aqueles que buscam revanche depois de haverem sido obrigados a devolver aos Pataxós as terras no entorno do monte Pascoal que haviam invadido em 1979; as dos Xavantes, da antiga Fazenda Liquigás ao lado do Parque do Xingu, também na década de 1970; que tiveram que desistir de acabar com os Yanomami (nota de rodapé: até onde sei, esse conspícuo Romero Jucá teve participação importante em um grande massacre desses índios por garimpeiros, em 1993); que, mais recentemente, viram o STF sancionar a criação da terra indígena Raposa Serra do Sol. Quem tem uma visão da sociedade como algo análogo à uniformidade de suas plantações de soja e pastagens continuará incapaz de associar diversidade ambiental e humana à riqueza, ou, ao menos, a um futuro menos desolador.

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Leitura de fim de ano:

A queda do céu – Palavras de um xamã yanomami, por Davi Kopenawa e Bruce Albert. Companhia das Letras, 2015.

(estou reapresentando o que postei no final do ano passado: dei-me ao trabalho de transcrever um dos parágrafos do prefácio de Eduardo Viveiros de Castro sobre o modo como o governo Dilma Rousseff tratou os índios brasileiros. Há mais, inclusive sobre Belo Monte, tratada como traição e já designada antes em artigo do antropólogo como atentado à diversidade – natural e cultural – ao longo do rio Xingu. Significativo um dos atos de despedida de Dilma ser a consumação do atentado, inaugurando a usina – para satisfação dos devastadores e com o silêncio complacente de setores que se têm como progressistas)

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São 730 páginas de depoimento: cosmogonia, biografia, relato da resistência de um povo indígena, através de um de seus líderes, com a colaboração ativa de um antropólogo.

Informe sobre o livro:

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12959

Trechos:

http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12959.pdf

“Gostaria que os brancos parassem de pensar que nossa floresta é morta e que ela foi posta lá à toa”, clama Kopenawa. Vou seguindo em frente na leitura, e reparando na sincronia de mitos. Quer dizer que a primeira tentativa de criar o mundo por Omama falhou? Mas isso também não está no colossal Popol Vuh dos quiché, a criação por tentativa e erro até dar certo? Dois irmãos antagônicos, Omama e Ioasi, regendo o mundo? Mas não é a história de Ormuz e Ahriman iranianos? Da fraternidade de Satanael e Cristo dos bogomilos? Queda do céu também é mito gnóstico. O mundo fascinante do comparatismo.

O prefácio por Eduardo Viveiros de Castro está disponível on line, no Academia.edu:

https://www.academia.edu/12865947/O_recado_da_mata

Pergunto-me se as observações do autor de Metafísicas canibais sobre a relação entre pesquisadores e seus objetos de pesquisa não poderiam ser transpostas também para o campo dos estudos literários. Situar-se na posição do autor lido / estudado, em vez da “objetividade” cientificista.

E não resisto a transcrever um parágrafo desse prefácio, com observações paralelas àquelas já publicadas neste blog – lembrando que este texto de Viveiros de Castro é de 2015:

O presente governo, e refiro-me aqui ao Executivo, desde sua comandante até seus ordenanças ministeriais, vem-se mostrando o de pior desempenho, desde a nossa tímida redemocratização, no tocante ao respeito a esses direitos, agravando a já péssima administração anterior sob a mesma gerência: procedimentos de demarcação e homologação de terras indígenas praticamente nulos; políticas de saúde mais que omissas, desastrosas para as comunidades indígenas; uma indiferença quase indistinguível da cumplicidade diante do genocídio praticado continuadamente e às escancaras sobre os Guarani-Kaiowá, ou periodicamente e “por descuido” sobre os Yanomami e outros povos nativos, bem como diante do assassinato metódico de lideranças indígenas e ambientalistas pelo país afora – quesito no qual o Brasil é, como se sabe, campeão mundial.

Também diz algo sobre Belo Monte e iniciativas afins. Acredito que Kátia Abreu, se lesse, discordaria, diria que é conspiração.

O espantoso pensamento político da atual ministra da Agricultura

Foi divulgada na rede social esta mensagem de Kátia Abreu: Espero que todos os que se manifestam em favor dos direitos humanos também se manifestem em favor dos brasileiros brancos: https://www.facebook.com/PartidoPirata.BR/photos/a.751680954859416.1073741841.180044272023090/1066118943415614/?type=1&theater Meu comentário imediato no Facebook:

Ela realmente tuitou isso … ? Por que não disse logo, de uma vez por todas, que é a favor dos direitos dos brasileiros de origem ariana? Assim apresentaria continuidade perfeita com os ensinamentos de Ad. Hitler. Neste campeonato de declarações inoportunas e despropositadas no segundo governo Dilma, por enquanto a mais séria candidata ao troféu é Kátia Abreu – apesar do empenho de Joaquim Levy, Cid Gomes, Thomas Traumann, Miguel Rossetto e outros esforçados competidores.

Para eliminar dúvidas de que fosse ‘hoax’, o poeta Ademir Demarchi achou o post original – é de 27/12/2013: https://twitter.com/katiaabreu/status/416702040593948673 E ainda copiou uma seleta de opiniões dela, motivadas pelos mesmos sentimentos cívicos, também divulgadas pelo Twitter no final de 2013. Reproduzo e completo com novo comentário meu:

Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Defender apenas os índios é politicamente correto.Defender produtores rurais ,aqueles que sustentam a economia do país é crime.Não merecem ! Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Este é o Brasil de dois pesos e duas medidas.Queremos tambem um ministério da justiça para não índios em 2014. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Onde estão o Cime,FUNAI ,MPF ,ONGs que defendem os direitos humanos…?Só funcionam pra brasileiros índios .Brasileiros não índios nada! Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Não dá nem pra imaginar o que estaria acontecendo se ao invés de 3 não índios desaparecidos fossem 3 índios .Já teria gente presa. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Min Eduardo Omisso Cardoso as mortes de índios e não índios estão na conta da sua fraqueza. Só o exercito hoje tem condições de pacificar. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 O Sr Min da Justiça está esperando mais mortes e massacres para tomar providencia?O Sr não sabe o que é isto .Tinha esquecido. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Conflitos iniciaram no MS, a BA vive clima de terror ,depois RS PR SC,agora no AM MA .Pessoas desaparecidas,desintrusão s/planejamento. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 FUNAI e Cime instigam conflitos entre índios e não índios. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 27 de dez de 2013 Se estiverem mortos o Sr Ministro da justiça é o responsável .Sua omissão e anuência aos atos da FUNAI são inadmissíveis . Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 27 de dez de 2013 Humaitá no AM virou praça de gerra.Tem 3 pessoas desaparecidas .A suspeita é que estão em poder dos índios .

Meus comentários adicionais: 1. Kátia Abreu foi escolha pessoal de Dilma Rousseff, e não uma indicação partidária. Pode-se supor, portanto, que Dilma Rousseff endosse esse pensamento, equivalente àquele predominante entre militares que conduziram o país e resultou em massacres como os dos Wamiri-Atroari, parar abrir uma estrada no Amazonas. Hoje só não se repetem tais massacres por causa dos movimentos em favor dos índios, execrados pela ministra. 2. Havia – periferia oportunista com presença minoritária – defensores do retorno dos militares e do fascismo entre os manifestantes anti-Dilma de 15 de março passado. Por isso, a banda sectária, invertendo a relação entre as partes e o todo, qualificou a mobilização toda como fascista e defensora do retorno dos militares. Mas, por esse argumento, não poderia o governo Dilma ser classificado como fascista pela presença de Kátia Abreu no ministério? E de outras figuras – Gilberto Kassab, importante agora na articulação política, era qualificado como fascista, pelo modo como tentou remover os sem teto usuários de crack. 3. A banda sectária. As trolagens na rede social. Vi vários posts com o perfil do novo ministro da educação, sem dúvida qualificado. Nada dos adeptos sobre Kátia Abreu ou Gilberto Kassab ou aquele outro ministro com o sobrenome da marca de cigarros que fumo. Escondem no armário, varrem para baixo do tapete. 4. O índice zero de criação de reservas indígenas nos últimos anos (cf. Kátia “índios têm terras demais”) e os 284% de aumento do desmatamento na Amazônia em fevereiro de 2015 justificam, a meu ver, todos os xingamentos, panelaços e demais exteriorizações. Ela faz por merecer (há outros bons motivos, é claro).

Dilma Rousseff e Kátia Abreu: pseudônimos

Brasília 2014 Foto: manifestação recente de povos indígenas em Brasília.
Há um manifesto de militantes denunciando “regressão” por causa dos anúncios de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda e Kátia Abreu no Ministério da Agricultura. Acho que não –reformulando meu post anterior, continua tudo como estava, nomear Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura não muda nada. Dilma Rousseff e Kátia Abreu são a mesma pessoa. Kátia Abreu vem governando o Brasil desde 2011. A prova: o recente aumento de 120% no desmatamento da Amazônia – isso sim, é retrocesso, ou “regressão”. E o índice zero de criação de novas reservas indígenas. As efetivamente homologadas – a exemplo daquelas dos Pataxó na Bahia e Xavantes em Mato Grosso – o foram cumprindo, finalmente, decisão judicial, após décadas de luta.
Autores dos encômios piegas que vi circularem no meio digital, o que farão? Engolirão em seco? Ou considerarão que algum stalinismo não fará mal a ninguém, que são necessárias algumas alianças (com oligarquias regionais e latifundiários) e alguns sacrifícios (de índios e reservas florestais) para promover a derrota final do capital?
EM TEMPO (postado no dia seguinte): Informe de que desmatamento na Amazônia caiu 18%, conforme os dados do Prodes do INPE, refere
-se ao período de agosto de 2013 até julho de 2014. Informe de que desmatamento na Amazônia deu um salto de 122%, conforme a Iamazon e o Deter-INPE, refere-se aos meses de agosto-setembro de 2014. Portanto, divulgação dos dados do Prodes não compromete minha argumentação de que Dilma Rousseff e Kátia Abreu são dois nomes diferentes da mesma pessoa,conforme exposto aqui.

Índios na literatura, novamente: a FLIP e alguma bibliografia, desta vez em prosa

A reunião sobre índios nesta última FLIP teve repercussão merecida. Eduardo Viveiros de Castro sabe do que fala, e seus ensaios sobre organização da linguagem e visão de mundo entre os Kamayurá são capitais – leiam.
E a presença dos índios na poesia, como tema ou autores, vem sendo bem examinada. Há, contudo, alguma literatura em prosa a ser lembrada. Antes de tornar-se best seller com Meu pé de laranja lima e Rosinha minha canoa, para depois ser execrado e esquecido, José Mauro de Vasconcelos havia criado, na década de 1950, narrativas cuja ação passava na região do Xingu e Araguaia. Arara vermelha fez sucesso e virou filme estrelado por Anselmo Duarte. Arraia de fogo, sombrio, talvez sua melhor obra, teve pouca repercussão. Aventureiro, com um currículo que incluía desde estudar medicina até ser garçom de boate, foi sertanista e colaborou com os irmãos Villas-Boas.
Literariamente mais importante, o seminal Quarup de Antonio Callado, que fez a cabeça de uma geração. Cenas decisivas, quando o protagonista resolve largar a batina e aderir à militância, passam-se no Xingu, que Callado, também jornalista, conhecia bem. No entanto, seu melhor livro tratando de índios é A expedição Montaigne. Sátira amarga, forma um díptico com Reflexos do baile, ambos sobre o fracasso das utopias. Merecem retorno à circulação. Intelectual honestíssimo, Callado encerrou sua produção com obras refinadas, revendo idéias expostas no que havia escrito antes.
Ainda procedendo ao resgate, lembro o historiador Manoel Rodrigues Ferreira. Pioneiro, publicou na década de 1950 sobre a Expedição Roncador-Xingu dos Villas-Boas, inclusive um livro ilustrado com fotos que, então, eram novidade. Tratou das lendas em torno das inscrições nos Martírios do Roncador e da vida às margens do Kuluene e Alto Xingu. Conservador, adepto do bandeirismo, rendeu-se aos encantos da região e das descobertas. O resultado, um relato cativante, autêntico. A reeditar.
Há mais, é claro. Evidentemente, na esfera documental o nome maior é mesmo do grande protagonista, Orlando Villas-Boas. E, talento múltiplo, pela criação literária, enorme contribuição antropológica e a realização do próprio Parque do Xingu, sem dúvida Darcy Ribeiro. Ilustro com mais uma das minhas fotos no Xingu em 1967, digitalizadas por Pipol Cronópios. Aguardem, em breve, álbuns no meio digital.
Sobre a mesa na FLIP:
http://oglobo.globo.com/cultura/flip-2014/antropologos-denunciam-ofensiva-contra-direitos-indigenas-no-brasil-13473921
e https://www.youtube.com/watch?v=ETX_Fy2dqS0
Acrescento as contundentes denúncias de Davi Kopenawa: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/eu-nao-quero-morrer-toa-diz-davi-kopenawa-em-paraty-13438470#ixzz3994qU9wB
E os registros mais recentes em meu blog sobre índios na poesia brasileira. São a propósito da mesa no Festival de Poesia do Recife, em maio deste ano, com Douglas Diegues e Sergio Medeiros – proponho mais encontros temáticos; e da revista Poesia Sempre da Biblioteca Nacional, dando conta do importante trabalho de Sergio Cohn e Pedro de Niemeyer Cesarino:
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/05/25/a-poesia-dos-indios-brasileiros-e-os-indios-na-poesia-brasileira/
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/04/06/o-lancamento-da-campanha-indio-e-nos-e-da-revista-poesia-sempre/

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A poesia dos índios brasileiros e os índios na poesia brasileira

Nesse III FIP, Festival Internacional de Poesia do Recife, que noticiei aqui em https://claudiowiller.wordpress.com/2014/05/17/o-iii-festival-internacional-de-poesia-do-recife/ , além de ler poemas e falar sobre xamanismo, assisti à sessão “Popol Vuh e Jurupari: poesia ameríndia e o sagrado”, com Sérgio Medeiros e Douglas Diegues, moderada por Delmo Montenegro. Gostei muito.
Ocorre-me propor e tentar organizar um festival de poesia temático, sobre os índios. Algo como “Os índios na poesia brasileira e a poesia dos índios brasileiros”.
Lanço aqui a idéia. Farei contatos.
Seria calcado, entre outras fontes, no trabalho de Sergio Cohn e Pedro de Niemeyer Cesarino ao colaborarem ativamente na preparação de “Poesia ameríndia no Brasil”, tema da última edição da revista Poesia Sempre – n. 37, de 2013, então editada por Afonso Henriques Neto, com Alberto Pucheu como editor adjunto. Tentem adquirir.
Estamos alienados com relação às expressões das culturas de nossos índios. Contribuirá, penso, acrescentar ao debate político em curso o trabalho na esfera propriamente cultural. Mostrar sua criação poética.
Apreciei muito observações de Sérgio Medeiros nessa sessão do III FIP, sobre a relação dos mexicanos com o Popol Vuh, cuja edição (da Iluminuras) ele preparou em parceria com Gordon Brotherson, e o Livro dos Livros de Chilam Balam: são tidos como fundamentais. Aqui, pouco se sabe sobre o complexo Jurupari, cuja edição Medeiros está para lançar. Brasil, país alienado de si mesmo, apesar dos Mário de Andrade, Darcy Ribeiro, Lévi-Strauss, e dos bons autores recentes, como Eduardo Viveiros de Castro, Manoela Carneiro da Cunha, Betty Mindlin, entre outros.
Douglas Diegues, organizador de uma preciosidade bibliográfica (ganhei dele), Kosmofonia Mbya Guarani de Guillermo Sequera (Mendonça & Provazi, 2006), fez observações sobre o modo como os povos guarani valorizam o símbolo. Riqueza, para eles, é ter patrimônio simbólico, não material. Teríamos muito a aprender nesse quesito.
Outras referência bibliográficas importantes, além das que citei – Poesia Sempre, Popol Vuh e Kosmofonia Mbya Guarani – são, a meu ver, as edições da Azougue de cantos de indígenas, em um projeto que teve o patrocínio absurdamente interrompido pelo Ministério da Cultura. E Couro dos Espíritos (SENAC e Terceiro Nome, 2001), registro de narrativas dos Gavião Ikolem da Rondônia preparado por Betty Mindlin e colaboradores indígenas. Esse volume, já levei a oficinas e cursos de surrealismo, para mostrar como são relatos não-discursivos. Isso, para não falar de bons registros iconográficos, em primeira instância de Claudia Andujar, além de Maureen Bissiliat e outros.
A propósito de índios e surrealismo, deveria estar publicada no Brasil a Anthologie des mythes, légendes et contes populaires d’Amérique, de Benjamin Péret, com um débito reconhecido para com Darcy Ribeiro, personagem decisivo, que faz falta em face dos acontecimentos recentes (homenagearia, nesse festival que estou sugerindo). E a obra prima, Le Miroir du Merveilleux, de Pierre Mabille. Quem quiser saber mais sobre sincronia de culturas tradicionais e poesia, leia.
Teorizo (um pouco de teoria literária não fará mal a ninguém): vanguardas, movimentos inovadores, recuperam o arcaico. São pontas que se tocam. A poesia de hoje tende a dialogar com aquilo que foi recalcado do nosso passado. Os poetas-xamãs. A etnopoesia.
Enfim, a idéia está lançada. Quero apoio e adesões. Vamos fazer que esses conhecimentos e criações ultrapassem o circuito especializado. Que se tornem mais públicos. Isso nos enriquecerá.

O lançamento da campanha “Índio é nós” e da revista Poesia Sempre

O lançamento da campanha “Índio é nós” e da revista Poesia Sempre

Foto: índia Kamaiurá “indoors”, preparando os beijus, das que tirei no Xingu em 1967 (há mais, dezenas, publicarei álbum em Cronópios).
Evento “Ìndio é nós”, haverá novas manifestações dias 17 e 24 de abril, em favor da demarcação das terras indígenas do Jaraguá e Tenondé Porão, em São Paulo. Mais em http://WWW.facebook.com/yvyrupa e http://www.yvyrupa.org.br
Ouvi relatos de extermínios recentes. São mais de 200 líderes indígenas mortos desde 2002– já havia publicado aqui sobre o retrocesso recente na questão do índio.
Revista Poesia Sempre, cujo nº 37 foi lançado durante o evento, desde o começo teve excelente qualidade – mas esta edição é especial. Histórica, a meu ver, pelo modo como promove a reinserção do índio no “corpus” da literatura brasileira. Enfrentou dificuldades com a burocracia de direitos autorais de índios – tutelados pela FUNAI, é necessária autorização através do órgão, que não se consegue. O problema é abordado em um dos textos: “Direitos autorais e culturas ameríndias: uma conversa com Carlos Fausto”, por José Eisenberg e Sergio Cohn. Poemas de índios que poderiam ter sido publicados como tais acabaram entrando como citações em dois artigos substanciosos, “Linjaguar: os ameríndios na literatura no Brasil” de Sergio Cohn e “Desafios das poéticas ameríndias” de Pedro de Niemeyer Cesarino. Cohn, que já publicou cantos indígenas pela Azougue e fez a maior parte dos levantamentos que constituíram a revista, também entrevista Lúcia Sá, autora de Literaturas da floresta: entre outras questões, fala da intersecção do reconhecimento literário e do direito á terra.
Não falta o que ler. Textos pioneiros, da primeira metade do século 19, de história da literatura no Brasil. A visão clássica e romântica do índio, incluindo esse interessantíssimo Bernardo Guimarães. Dossiê, com fac-símile da Revista de Antropofagia na qual saiu o Manifesto de Oswald. Poetas contemporâneos tratando do índio, de Luiz F. Papi e Jorge Tufic até Ailton Krenak e André Vallias: o conjunto surpreende. Iconografia.
Haveria mais. Seria possível achar o manifesto “Pelos índios!” do simbolista-esoterista Dario Veloso, condenando massacres de índios no Paraná já em 1896? Também por causa de direitos autorais, ou de sucessores obtusos, ficaram fora, entre outros, os indispensáveis Raul Bopp e Mário de Andrade.
Algo que me interessa especialmente, nesses conjuntos: o modo como confluem o mais arcaico, a expressão de sociedades tribais, e o mais contemporâneo, poetas de hoje: há glossolalias, subordinações do sentido ao som, poemas que são puro ritmo, medida originária do tempo, conforme assinala Octavio Paz, nos dois conjuntos.
Com isso, encerrou-se bem a atuação de Afonso Henriques Neto como editor de Poesia Sempre, com Alberto Pucheu como editor adjunto. E minha passagem pelo conselho editorial. Valeu. Como se sabe, a distribuição comercial de Poesia Sempre inexiste. Tentar através de poesiasempre@bn.br ou http://www.bn.br/; ou então ir lá, à Biblioteca Nacional.