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VAMOS APOIAR AS MOBILIZAÇÕES CONTRA A CENSURA, DIANTE DO RECRUDESCIMENTO DA BOÇALIDADE

Em 1982, eu era secretário geral da UBE e participei da formação de um Comitê conta a censura, junto com dirigentes de associações, artistas e intelectuais. Lembro-me que também estavam João Batista de Andrade, Ester Goes, Ligia de Paula, Sergio Mamberti, Glauco Pinto de Morais, entre outros.

Em 1988, eu presidia a UBE. Fiz parte de outro comitê, com a incansável Graça Berman e outros artistas, que foi a Brasília levar as propostas referentes á Cultura para a Assembleia Constituinte. Todas incorporadas à Constituição. Inclusive ou principalmente o fim da censura.

QUE COISA…! Décadas depois, ter que começar tudo de novo … !!!

Isso, porque grupos suspeitíssimos têm atacado manifestações artísticas. Querem revogar a garantia constitucional da liberdade de expressão, restaurando a censura.

É preciso que os setores sadios da sociedade reajam.

Este domingo, dia 8 – quando teria sido o encerramento do “Queermuseum” em Porto Alegre, não fosse a covardia da instituição patrocinadora – haverá duas manifestações importantes em São Paulo. Comparecerei a ambas.

Uma delas, “Vamos todos ao MAM”, será no Parque Ibirapuera, a partir das 13 h. Desagravo em face das agressões ao museu e da tentativa – mal sucedida – de encerrar a exposição “Brasil em multiplicação”, por causa da performance “La bête”, de Wagner Schwartz. Mais, nesta notícia: https://www.revistaforum.com.br/2017/10/02/milhares-prometem-ficar-nus-em-ato-em-frente-ao-museu-de-arte-moderna-de-sp/ .

A outra é o Festival da Arte Degenerada, a partir das 15 horas, na Rua Ana Cintra e imediações. A esta, não só comparecerei, mas lerei algo. Transcrevo o informe preparado pelos organizadores:

Festival da Arte Degenerada sai às ruas contra censura de obras e faz convocação de artistas para grande ato no centro de SP

Manifestação acontece no dia 08 de outubro, data em que se encerraria a exposição Queermuseu, censurada em Porto Alegre. Artistas e coletivos estão convidados a realizarem intervenções.

Uma grande manifestaçãono centro de São Paulo mobiliza grupos e coletivos de arte para a realização do Festival da Arte Degenerada, no próximo dia 08 de outubro, data em que se encerraria a exposição Queermuseu. O evento contará com apresentações artísticas e uma caminhada para ocupar o Minhocão. O objetivo do grupo é “realizar um ato político e poético para escangalhar o centro de São Paulo e promover a união da classe artística e da população em geral contra o discurso reacionário”.

O evento terá início às 15h com um sarau aberto no Espaço Cultural Kazuá (Rua Ana Cintra,26), no centro da cidade. Em seguida, o grupo caminha até o Minhocão em “um grande cortejo degenerado repleto de música e performances”. A manifestação retorna para a sede da Kazuá para um encerramento com apresentações musicais, peças de teatro e exposição de obras.

Entre as apresentações confirmadas estão: o bloco carnavalesco Agora Vai, o coletivo Usina da Alegria Planetária, o grupo de intervenções urbanas Cia. Cachorra, o projeto Animália e os performers Malayka SN, Xerxes, Elmir Mateus, Heron Sena e Rafael Zorzella. O escritor e ensaísta Claudio Willer também marca presença realizando leituras de poemas de Roberto Piva, poeta morto em 2010.

O protesto acontece após os recentes casos de censura a obras de arte como o fechamento da exposição Queermuseu em Porto Alegre, a retirada do quadro “Pedofilia” de Alessandra Cunha do Museu de Arte Contemporânea do Mato Grosso e a proibição na Justiça da encenação da peça “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” no SESC de Jundiaí.

Na última semana, uma nova tentativa de interdição artística atingiu os realizadores da performance “La Bête”, que está em cartaz no MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo.Grupos de extrema-direita na internet passaram a divulgar um vídeo em que uma criança acompanhava a performance, que consiste na livre interação do público com o artista, completamente nu. Algumas pessoas chegaram a se reunir em frente ao museu no sábado, agredindo funcionários e tentando, sem sucesso,impedir a performance.

A ideia da manifestação surgiu a partir da mobilização da Editora Kazuá com os grupos Usina da Alegria Planetária, Cia. Cachorra e o bloco Agora Vai, que convocam todos os coletivos e grupos de teatro, música, dança, literatura, artes plásticas e visuais para se juntarem ao ato e montarem apresentações, performances e exposições durante todo o dia. Os interessados podem enviar uma mensagem para o email: comunicacao@editorakazua.com.br

A manifestação já possui evento no Facebook, onde será possível conferir os coletivos e artistas que irão se apresentar, assim que for montada a programação.O termo “arte degenerada” é uma referência à censura promovida pelo regime nazista às obras de arte consideradas subversivas na Alemanha.

Link para o evento no Facebook: https://goo.gl/pJkzLF

Vídeo-teaser: https://goo.gl/t6HRu6

Mais informações:

Evandro Rhoden(11 98020 – 9848)

Thiago Gabriel (11 95066-1900)

comunicacao@editorakazua.com.br

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Sobre o fechamento da mostra de de temática LGBT com 264 obras de artistas consagrados no Santander em Porto Alegre,

Após ser acusada por grupos de extrema direita de ser apenas apologia a pedofilia, zoofilia e anticristã, conforme noticiado aqui, entre outros lugares: https://jornalistaslivres.org/2017/09/fascistas-forcam-encerramento-de-exposicao-de-arte-em-porto-alegre/
Havia publicado no Facebook :
Episódio vergonhoso. Parece que MBL e organizações afins resolveram ampliar seu campo de atuação, deixando claro a que vieram, reeditando procedimentos como os dos nazistas contra a “arte degenerada”. E que corporações empresarias fazem questão de mostrar-se covardes. Será que a censura é mesmo algo que vai e que volta?
Vi algumas canhestras justificativas do fechamento. Por isso, prossigo, observando que:
a) Ninguém foi obrigado a visitá-la, iria quem quisesse, quem não estivesse a fim, que fosse a outro lugar;
b) Por isso, os argumentos – “argumentos”… – dessa gente implicam, necessariamente, a volta da censura, de alguém a resolver o que podemos ver e frequentar no cinema, teatro, que livros podemos ler etc.
c) Como todos sabem, é gigantesca a fila de obras proibidas e que causaram escândalo em um dado momento, porém reabilitadas mais tarde. As flores do mal de Baudelaire, inclusive. Eu vi o documentário sobre a mostra “Entartete kunst”, “arte degenerada”, promovida por Hitler. Os artistas expostos à execração, os dadaístas, cubistas, expressionistas, surrealistas, os Otto DixErich HeckelOskar KokoschkaFranz MarcEmil Nolde, figuram nos compêndios de História da Arte. Os artistas bons, saudáveis, na ótica totalitária, reaparecem eventualmente como exemplo de mau gosto. É bom lembrar que soviéticos fizeram a mesma coisa, ao imporem o “realismo socialista” como norma.
d) De todo modo, é inútil argumentar com essa gente. Determinados conteúdos os excitam. Terapia, quem sabe: trancá-los numa sala e obriga-los a assistir ao documentário sobre as fotografias de Robert Mapplethorpe? A Salò de Pasolini? Os dois volumes de Ninfomaníaca de Lars von Trier? Material educativo, que pode ajudar a esclarecê-los, felizmente não falta, hoje em dia – e isso torna ainda mais dissonante o que ocorreu em Porto Alegre.
Meio digital está aí – façamos que imagens e obras dessa mostra circulem. É a melhor resposta. Mostra inclui obras de Lygia Clark, Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Clóvis Graciano, Fabio Del Re, Flávio Cerqueira, Gilberto Perin, Sandro Ka, Yuri Firmesa e Leonilson – entre outros notáveis pervertidos.

O caso do Padre Wilson de Adamantina e o Facebook

EM TEMPO: adiciono ao post a manifestação dos fiéis de Adamantina. BEM FEITO!
http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2014/12/08/em-sp-populacao-ve-racismo-contra-padre-e-protesta-bispo-deixa-igreja-escoltado.htm
Estranhíssimo
Amigo meu, Carlos Figueiredo, mandou-me petição em favor do Padre Wilson. Conforme o noticiário, está para ser transferido de Adamantina, SP, para a cidade vizinha de Dracena. Motivo: reclamações de freqüentadores da igreja, por ele ser negro. Nada mais nem menos. Em pleno 2014. Conforme noticiado aqui:
http://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-regiao/noticia/2014/12/com-nova-igreja-definida-padre-vitima-de-racismo-so-espera-ser-acolhido.html
Reproduzi o link da petição no Facebook. Simplesmente, o Facebook recusou-se a publicar, sob alegação de que o link é inseguro. Este link: http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR77736
Da mesma família e da mesma origem de inumeráveis outros links de petições que já retransmiti.
O que estará havendo? Algum bloqueio sectário? Tudo bem – então segue através deste blog, de maior alcance que minha página de Facebook. Retransmitam.
Não me envolvo em assuntos católicos, a não ser para observar bobagens ditas por prelados e pelo papa anterior, e para volta e meia publicar a Carta ao Papa de Artaud. Mas não dá para deixar passar, não só o racismo, mas a inesperada trava da rede social.
EM TEMPO:
Para termos certeza de que não é ‘hoax’, além da notícia do Globo.com, esta, de um jornal, que por sua vez reproduz Folhapress:
http://www.otempo.com.br/capa/brasil/sa%C3%ADda-de-padre-v%C3%ADtima-de-ofensas-racistas-divide-cidade-no-interior-1.957686
O iluminado prelado que resolveu transferir o padre é o bispo da Diocese de Marília, dom Luiz Antonio Cipolini.
Inevitáveis mais alguns comentários:
Adamantina + Diocese de Marília em 2014 = Alabama nos anos de 1950
Em 1973, precisei de datilógrafa, atendente da empresa de mão de obra temporária perguntou se tinha problema a funcionária ser “de cor”. Na época, anúncios de oferta de emprego especificavam: “de boa aparência”, subentendendo ser branca, ou, se fosse afrodescendente, que estava fora. Em prédios residenciais, era comum visitantes negros serem automaticamente encaminhados ao elevador de serviço.
Programação de cinema para Adamantina + Diocese de Marília: ‘Django livre’ de Tarantino. ‘Mississipi em chamas’ de Alan Parker
Programação de shows para Adamantina + Diocese de Marília: Gil, Preta Gil, Jorge Benjor, Olodum, Mart´nália?
Programação literária: vou lá e dou palestra sobre Cruz e Souza ou sobre Aimé Cesaire e outros poetas da negritude.
Lembram de dom Geraldo Proença Sigaud? Bispo de Campos, RJ, líder da TFP, Tradição, Família e Propriedade, reacionário da pesada. Esse dom Cipolini, terá sido discípulo dele?
Alguém teria como informar ao papa Francisco? Fulminaria. Imaginem, racismo em Adamantina enquanto o líder prega tolerância no Oriente Médio. Serve também comissão de direitos humanos, órgãos do governo que tratam disso, aquela secretaria, clero progressista, Ministério Público e até delegacia local – afinal, racismo é crime, nem beatos nem autoridades religiosas estão acima da lei. Se vale para torcedor de clube de futebol, então tem que valer do mesmo jeito para devoto de igreja.
PARA COMPLETAR (postado no dia seguinte, 09/12): a boa matéria em O Estado de S. Paulo: http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,bispo-e-acuado-em-igreja-e-so-sai-escoltado-no-interior-de-sp,1603885

Uma seleta de passagens edificantes e instrutivas do “Manual de boas maneiras para meninas” de Pierre Louÿs

Pierre Louÿs downloadDa Azougue editorial, 2006, coleção Devassa, tradução de Bernardo Esteves, Tiago Esteves e Paulo Wernek. No original francês, “Manuel de civilité pour les petites filles à l’usage des maisons d’éducation”, publicado em 1926. A data deve ser levada em conta: um livro anacrônico, pois hoje a educação das mocinhas é menos rígida, não são obrigadas a ir semanalmente à missa e a comungar, nem a rezar ao espertar e na hora de dormir, tampouco a comparecer a fastidiosos jantares em família; ademais, há menos tabus relativos a sexo e erotismo. Não obstante, a obra é relembrada e ultimamente vem suscitando manifestações iradas. Como já observei no Facebook, toda vez que vêm à tona denúncias de estupros, algumas pessoas acham que a culpa é de Pierre Louÿs.
O manual é dividido em capítulos: ‘No teatro’, ‘No baile’, ‘No confessionário’ etc, culminando com “Na cama com uma amiga”e “Na cama com um velho”. Já levei a rodas de leitura e cursos, para tratar de sátira. Examinei as negações afirmativas, os “Nunca faça” e a série final do “Nunca diga”.
Após reproduzir trechos, informo sobre Pierre Louÿs e comento as broncas recentes. Seguem alguns dos espirituosos conselhos às menininhas:
“Não fique na varanda cuspindo sobre os passantes, sobretudo se estiver com porra na boca.
Não mije no degrau mais alto da escada para fazer cascata.
Se lhe perguntarem o que você bebe nas refeições, não diga que só bebe porra.
Não faça ir e vir um aspargo em sua boca olhando languidamente o jovem que você pretende seduzir.
Não faça cocô na musse de chocolate, ainda que, por estar proibida de tomar sobremesa, você esteja certa de que não vai comê-la.
Se bater uma punheta para seu vizinho com o guardanapo dele, seja discreta para que ninguém perceba.
Se encontrar um cabelo suspeito em sua sopa, não diga: “Oba, um pentelho do cu!”
Colocar mel entre as pernas para que um cãozinho venha lambê-la é permitido a rigor, mas é inútil retribuir-lhe o serviço.
Meninas bem educadas não mijam no piano.
Caso tenha se masturbado no elevador, coloque suas luvas de volta antes de entrar.
Se uma mulher se recusar a se sentar, não lhe dê conselhos sobre o perigo de ser enrabada por um estabanado.
Ao despertar, uma menina deve terminar totalmente de se masturbar antes de começar a rezar.
Se você não se masturbou o bastante de manhã, não termine na missa.
Se chupar um homem antes de ir comungar, controle-se para não engolir a porra: você não estaria mais em jejum como deveria estar.
Se você transar à tarde em uma igreja do interior, não lave sua bunda na água benta. Longe de purificar o pecado, você estaria agravando sua falta.
Não se masturbe no confessionário para ser absolvida logo em seguida.
Não entre nos mictórios para ver os homens mijando.
Se um velho sátiro lhe mostrar seu membro numa curva de uma aléia, nada a obriga a lhe mostrar sua xoxotinha por educação.
Não entre em um salão de cabeleireiros pedindo descaradamente para escovar os pêlos do cu.
Não ponha a mão na calça do seu vizinho para ver se o balé o deixa de pau duro.
Ao nadar, não peça às pessoas presentes permissão para fazer xixi. Faça sem autorização.
Não mande anunciar pelo vilarejo que você perdeu o cabaço. O homem que o encontrou não o devolverá.
Quando seu pai se apresentar no círculo social que freqüenta, não diga: “Olha o corno aí!”; se disser, faça-o baixinho.
Se você sentar na coxa esquerda do seu pai, não esfregue a bunda na pica dele para deixá-lo de pau duro, a menos que vocês estejam a sós.
Se você estiver se masturbando quando seu pai entra no quarto, pare: é mais conveniente.
Não chame sua mãe de vaca velha, piranha de beira de estrada, chupadora de puta, cagadora de porra, pústula ambulante etc. Essas são expressões vulgares.
Se sua mãe perguntar o que você prefere beijar, não responda: “O cu da empregada”.
Masturbe seu irmão na cama dele, nunca na sua. Isso a comprometeria.
Quando sua irmã estiver mijando, não retire o penico para que ela faça no chão. Seria uma brincadeira de mau gosto.
Não faça troça da sua irmã se ela não quiser dar a bunda. Uma menina é inteiramente livre para oferecer apenas um buraco a seus amantes.
Todas as noites, antes de se masturbar, faça a sua oração ajoelhada.
Algumas meninas muito vigiadas compram uma santinha em marfim polido e usam-na como consolo. É um uso condenado pela Igreja.
Se você descobrir que é filha do amante e não do marido, não chame esse homem de papai na frente de vinte e cinco pessoas.
Quando tiver acabado de chupar alguém, não vá à cozinha cuspir a porra em uma panela. Os criados fariam mau juízo de você.
Nunca diga: “Minha boceta”. Diga: “Meu coração”.
Nunca diga: “Quero trepar”. Diga: “Estou nervosa”
Nunca diga: “O pau dele é muito grande para minha boca”. Diga: “Sinto-me pequena quando converso com ele.”
ETC
PIERRE LOUŸS (1870 – 1925), belga, se tornou mais conhecido por “As canções de Bilitis”, musicadas por Claude Debussy. Críticos caíram na pseudo-epigrafia e acreditaram que existisse uma poeta grega chamada Bilitis, contemporânea de Safo de Lesbos. E por “La femme et le pantin” (A mulher e o fantoche), drama filmado por Joseph von Sertenberg, estrelado por Marlene Dietrich em 1935. Escreveu uma quantidade de narrativas históricas. “Afrodite”, sobre prostituição sagrada em Alexandria, tem edição brasileira. Há outra edição, rara, de “Três filhas da mãe”, obra transgressiva, perto da qual o “Manual” é recatado. Já integrei banca de uma boa tese de doutorado, “Cortesãs de Pierre Louÿs” de Paula Gomes Macario, UNICAMP, dezembro de 2012.
Sobre as reações recentes, já me havia manifestado:
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/03/31/obscurantismo-histeria-e-principalmente-analfabetismo-funcional/
Parece que o fundamento das reclamações é o patrocínio dessa e outras edições, em 2006, pela cervejaria Devassa. O capitalismo corruptor. Até a década de 1980, censores achavam que era o comunismo, para dissolver a família. Este artigo sobre representações da mulher na propaganda, não como lasciva, mas como dedicada servidora doméstica, que me foi encaminhado por Sergio Cohn da Azougue, é muito bom: http://fuersie.tumblr.com/
A categoria “sexismo” é coisa de gente que anseia pelo retorno da moral vitoriana. A leitura literal de sátiras é sintoma de semianalfabetismo. Infelizmente, há ativistas empenhadas em confundir feminismo, responsável pelo fim da subordinação da mulher ao homem em sociedades modernas, com obscurantismo. Chegou a ser aberto um procedimento no Ministério Público, por causa da celeuma – felizmente não deu em nada.
A praga do politicamente correto: pois já não houve um edital da Funarte e Biblioteca Nacional, em 2012, oficializando censura? Denunciei: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/17/caso-gravissimo-censura-em-edital-da-funarte-e-biblioteca-nacional/
Se deixarem, proibirão não apenas títulos de Pierre Louÿs, mas Lolita de Nabokov, a obra obscena de Hilda Hilst, todo William Burroughs, Henry Miller etc, além, é claro, do Marquês de Sade. Reverterão conquistas que consumiram tempo, e também dinheiro: as batalhas judiciais da Grove Press de Barney Rosset na década de 1960 enfraqueceram a editora e contribuíram para seu fim, conforme relatado em “A hora terna do crepúsculo” (Globo, 2013) de Richard Seaver, um dos editores. Enfim, não faltam motivos para não admitirmos retrocessos.

CONTRA A CENSURA, SEMPRE

Foi criado no Facebook, pelo poeta Rubens Zárate, um grupo intitulado ‘Clube Willeriano do Crime’ – alusão a um verso meu, epígrafe do grupo: “O crime é a mais bela carícia aos ouvidos humanos’. Já tem 260 participantes. Vai aumentar. Conteúdo: poemas, imagens (agora, uma série de Bosch), links, informação interessante. Bastante, é claro, sobre beat e surrealismo.

Zárate postou duas fotos de Allen Ginsberg e Peter Orlowsky, inteiramente nus. Au naturel. Em português claro: de pau pra fora. Foram apagadas, deletadas por censores do Facebook. Política da casa.

Por isso, decidimos que 12 de março será o dia contra a censura no Facebook.

Ação: postar a maior quantidade de fotos de nus possível.

A poeta Elizabeth Lorenzotti publicou o link de um manual de censura do Facebook – parece que um grupo de assalariados, no Marrocos, examina páginas e corta o que não se enquadra.

Inumeráveis as fotos de Ginsberg desse jeito: tinha mania de nudez, tirava a roupa em público, protagonizou episódios famosos. Atitude política, é claro. E religiosa (adiante, falarei sobre isso). Em seu Indian Journals, foto de um saddhu, devoto mendicante, sem nada a não ser seu corpo. Hilário o episódio de Henry Michaux ir conhecê-lo no Beat Hotel, ser recebido por um Ginsberg peladão, cortando as unhas dos pés. As vezes em que tirou a roupa em récitas de poesia e outros eventos  – isso e tópicos relacionados, comento no Geração Beat.

Sei o que vou mandar dia 12: um Shiva ictifálico, tem nas imagens de Konarak e também, me parece, de Angkor Wat, o deus de pernas cruzadas, o pau ereto chegando até o queixo. E imagens dos murais de Pompéia, decoração romana – salas de visitas de mansões de famílias e não bordéis como pensaram os primeiros a descobri-las – com toda sorte de posições e variações sexuais. Haveria coisa melhor– alguém passaria o scanner em Les larmes d’Eros de Georges Bataille? Literatura! Links com paginas do Lori Lamby de Hilda, de Henry Miller, de …

Tenho observações adicionais sobre a inominável cretinice de quererem controlar o que podemos ver ou não, assim restaurando o reinado da hipocrisia.

A censura foi abolida no Brasil pela Constituição de 1988. Nos Estados Unidos, desistiram em 1966, após a batalha judicial que culminou na liberação de Naked Lunch, Almoço Nu, de William Burroughs: se podia aquilo, raciocinaram, então não havia motivo para proibir o que fosse. Até pouco antes, não entravam –Correios agindo como órgão de censura – Henry Miller, D. H. Lawrence, James Joyce, entre outros. Nessa época liberaram oficialmente o Marquês de Sade na França.

Mas sempre, insisto, sempre há alguém tentando fazer a censura voltar pela porta dos fundos. Uma de suas modalidades: censura judicial, a pretexto de proteção de biografados. Isso, já denunciei energicamente – o que escrevi está, entre outros lugares, em http://www.revistabula.com/posts/arquivo/em-defesa-das-biografias .

Defesa da liberdade de expressão e repúdio à censura compõem o item 1 das conclusões do recente Congresso de Escritores da UBE, postadas aqui neste blog. Volta e meia  também censuram artes visuais. O famoso caso da exposição de Robert Mapplethorpe. Aqui, de Nelson Leirner – e tantos outros. E cinema: pois não é que, logo após a aprovação da Constituição de 1988, tiraram do ar Je vous salue Marie de Godard?

O argumento mais comum em favor da censura: proteger crianças, menores, que são tutelados. Pois deveriam protegê-las da hipocrisia, isso sim. Faria bem saberem que o corpo humano é assim, que não é a cegonha que faz. Prejudicial é o recalque. E, atualmente, tudo está exposto, Saló de Pasolini na TV a cabo etc: mundo ambivalente.

Outro argumento é jurídico: não poderia o que é proibido por lei: pedofilia, estupro. Claro. Tarados, perpetradores de violências, seu lugar é dentro de alguma instituição. Mas há confusões entre o fato e sua representação. Observo isso toda vez que dou palestra sobre Lori Lamby de Hilda: na platéia, alguém respira ou faz cara de alívio quando chego ao final: “Ah … ! Então a menininha estava inventando todas essas histórias! Ela não fez nada disso … !” E assim alguém cai na armadilha que Hilda, genialmente, preparou para o realismo ingênuo: como se fizesse diferença, como se, independentemente do desfecho da narrativa, tudo não pertencesse ao mundo da escrita, e não dos fatos.

Ah, sim, os fatos: quanto a esses, basta fazer de conta que não existem… – só não passar pela praia de Iracema em Fortaleza em uma noite movimentada, nem reparar em todos aqueles hotelzinhos mais afastados – e em tantos outros lugares neste Brasil, abstraídos pelas boas consciências, acobertados por outros, posto que isso movimenta dinheiro.

Mas chega de sociologia. Passemos à informação histórica.

Aí vai um parágrafo de Shiva e Dioniso – A religião da natureza e do Eros, de Alain Daniélou (ed. Martins Fontes):

“A identificação do deus e do homem com a natureza implica a nudez. O homem verdadeiro é nu. A religião hipócrita e farisaica da cidade é que exige a roupa. Shiva é nu. O sábio e o monge shivaístas erram pelo mundo nus e sem vínculos. Na Índia a nudez é sinônimo de liberdade, virtude, verdade e santidade. A antiga religião atéia da Índia, o jainismo, rival do shivaísmo, também exige que seus fiéis sejam nus. O mundo grego conheceu esses gimnosofistas, ascetas nus que vinham da Índia, e os soldados de Alexandre que, na Índia, quiseram seguir os ensinamentos dos filósofos, tiveram que se desnudar. A nudez tem um valor mágico e sagrado. “Semeia nu, lavra nu, colhe nu, se queres em seu tempo terminar todos os trabalhos de Deméter, a fim de que, para ti, cada um de seus frutos também cresça em seu tempo.” (Hesíodo, Os trabalhos e os dias)

Teria mais para citar, de Daniélou e outros especialistas (Eliade inclusive) sobre nudez sagrada, erotismo místico, sexo ritual e temas correlatos.

É o sentido da recorrente nudez de Ginsberg, adepto e iniciado, ordenado, como se sabe, em uma corrente tântrica do budismo tibetano.

Um cacoete recorrente entre conservadores é associar liberdade sexual e libertinagem à “decadência” (conservadores à ‘direita’ e à ‘esquerda’: “decandência” foi uma categoria pela qual stalinistas tinham especial predileção), ao ocaso de civilizações, à desagregação de sociedades. É o contrário: libertinos franceses do século XVIII, por exemplo, não podem ser separados do avanço do Iluminismo, da luta contra o absolutismo, a opressão.

Observações sobre a “decadência” romana incorrem nesse erro. Tentaram proibir as bacanais em 263 a.C. – não conseguiram. As espantosas condutas nas cortes de Nero, Tibério (foi o pior, pedófilo desenfreado), Calígula, precedem a expansão máxima do Império, com Trajano e Adriano, por volta de 100  / 120 d.C. Pompéia, com as decorações libertinas de salas de jantar, foi soterrada em 73 d.C. Retratos de um apogeu, não de uma decadência. Igualmente, as variações da luxúria no Satiricon de Petrônio, tão bem transpostas por Fellini.

Coincidiu com a adoção do cristianismo em 323 d.C, por Constantino, o Império ir se desagregando (não que Constantino fosse santo – envenenou um dos filhos, método da época para resolver disputas de sucessão, por exemplo).

Na série de TV Roma (HBO), a cena de Marco Aurélio fazendo com uma escrava sobre a mesa da sala de visitas, na frente de todo mundo, antes do célebre discurso no Senado, retrata a naturalidade com que romanos se relacionavam com o corpo e o sexo.

Escreveria mais algumas páginas sobre os gregos. Importa que censores não sabem de nada disso, e não querem saber. Procuram impedir que os outros saibam.

Alguns tentam transmitir conhecimento – outros querem perpetuar a ignorância.

Dia 12, no Facebook.