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RADUAN NASSAR, O CAMÕES E SUA REPERCUSSÃO: A PROPÓSITO DO QUE HAVIA PUBLICADO NO FACEBOOK

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Repercutiu, tornou-se viral – por isso, reproduzo aqui, com observações adicionais. Teve adesões, críticas e apenas dois “haters”; ou seja, ambiente melhorou desde 2014. Um dos xingadores, Jorge Henrique Bastos (aquele que era da Martins Fontes? que coisa), além de depreciar-me como poeta (não ligo, tenho os leitores que mereço e não sou perseguidor de glórias) escreveu que apoiei o regime militar (jamais…! meu dossiê de atuações contra a ditadura é grande) e fiz carreira em cargos públicos – nem tanto e só em governos eleitos democraticamente, isso sem desmerecer quem ocupava cargos durante os militares e fez boas coisas, por exemplo o pessoal do então Serviço de Teatro da SEC do MEC que premiou autores censurados.

Aí vai o post:

ACHO QUE HOJE PERDI A PACIÊNCIA. Cada um escolhe a resistência e os heróis da resistência que preferir. Governo Temer é no mínimo deplorável e a perpetuação da corja ou parte dela deve ser denunciada. Mas desinformação e ingenuidade, somada à produção de bobagens, precisam ter um limite. Raduan Nassar é ótimo – benemérito inclusive, doou sua propriedade rural á UNESP – retifico, à UFSCar – , e eu queria ter registrado o que ele me disse sobre Jardins da Provocação em 1981. Merece as homenagens. Mas, durante o regime militar, absteve-se – chegou a sustentar que não houve censura de livros durante o dito regime – isso em julho 1981, em um encontro de escritores, UBE e SESC, eu estava lá, ele levou uma bronca do Péricles Prade (então presidente da UBE, havia atuado no caso Herzog) por isso. Não participou da visita ao Armando Falcão da Lygia, Nélida, Antonio Torres e outros escritores para protestar contra a censura. Nem de mais nada. Não acho que isso o reduza ou deva ser cobrado. Tem o direito de tomar a posição que bem entender em cada circunstância. Já Roberto Freire era dirigente do PC, o Partidão, com militantes presos, torturados e até mortos. E daí? São as voltas que o planeta dá sobre si mesmo? Baudelaire e a defesa do direito de contradizer-se? Provavelmente. Se a reunião de 1981 fosse de adeptos do regime militar e não de opositores, então ele defenderia a redemocratização? Mas as manifestações sobre esse episódio da premiação, do Camões deveriam conter mais informação e menos demagogia. Tem gente que sabe muito bem do que estou falando e está omitindo, de ma fé. Estão inclusive enganando a garotada, o pessoal que chegou mais recentemente. Obliterar a história, esquecendo quem estava em qual lugar quando as coisas estiveram realmente feias, durante a vigência do golpe (daquele verdadeiro golpe) é péssimo, não se justifica de modo algum.

Como refutação, circulou algo do Brasil 247, que obviamente desconsidero (propaganda paga, não), e um artigo de Pádua Fernandes intitulado “Desarquivando o Brasil CXXXIII: Raduan Nassar e a ditadura militar”, citando-me. Este: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2017/02/desarquivando-o-brasil-cxxxiii-raduan.html

As informações de Pádua Fernandes são corretas. Sim, Um copo de cólera é lido como literatura de resistência, inclusive por gente do calibre de Leyla Perrone-Moisés e Milton Hatoun. E sim, Raduan publicava o Jornal do Bairro no fim da década de 1960, fichado pelo DOPS, e foi sócio da PAT Edições indexada pelo CENIMAR.

Mas isso não contradiz nada do que escrevi, nenhuma das informações do meu post. Jornalismo de resistência eram Pasquim, Opinião, Movimento (onde publiquei), Versus (onde colaborei) e outros tablóides de combate. Muito visitados pela repressão. Ter ficha no DOPS pouco significa, isoladamente. Sei disso por haver examinado minhas cinco fichas. Feitas por uns burocratas que não tinham noção (felizmente) e anotavam qualquer coisa – mais burros, só os censores. Iniciativas de maior alcance, não repararam. Federais, exército e SNI, eram mais perigosos: naquelas leituras de poesia na porta da Brasiliense no calçadão da Itapetininga em 1977, a quantidade de tipos fotografando e gravando que não eram jornalistas, mas o DOPS nem reparou naquilo.

E a interpretação de Um copo de cólera como literatura de resistência é de 1996, nos substanciosos Cadernos do Instituto Moreira Salles. Quando saiu, não lemos assim aquele desabafo de um machão desenfreado de uma só extensa frase. Literatura de resistência, no campo da narrativa em prosa, eram, entre outras, As meninas de Lygia Fagundes Telles (que ganhou Camões em 2005), com relato de tortura, ou Zero de Ignácio de Loyola Brandão, também com cenas de tortura e proibido na época. Pelo mesmo motivo não podia no Brasil O livro de Manuel de Julio Cortázar, comprei meu exemplar em Buenos Aires – mas, com toda a grandeza de Cortázar, naquele momento Zero me impressionou mais. Aliás, aí estaria um bom premiado do Camões, o Loyola, inclusive pelo antecipatório Não verás país nenhum e o experimental Os dentes ao sol. Sem comício e claque na entrega – em 1980, andava de estrelinha vermelha na lapela, foi se decepcionando e distanciando, perdeu de vez a paciência ao ser lesado pelo BANCOOP.

Isso, em prosa – em poesia, Ferreira Gullar levou um Camões em 2010, para decepção da banda sectária. Se é para registrar poemas de resistência, também lembro o belo Coração Americano de Renata Pallottini, apresentação no Municipal, organizei, foi outra das ocasiões em que o DOPS não chegou a tempo.

FINALMENTE, houve objeções a este trecho: “quando as coisas estiveram realmente feias, durante a vigência do golpe (daquele verdadeiro golpe)”. Acho a comparação entre o que houve e o que está acontecendo agora uma ofensa a muitos que tiveram que agüentar o regime militar (além dos que não agüentaram). Em dada altura, lá pela década de 1970, parecia escuridão sem luz no fim do túnel. Hoje tenho acesso ao que quiser, vou aonde me aprouver sem olhar sobre o ombro para ver se tem alguém seguindo. Sustos que passei, registros das vezes em que dei sorte (outros não tiveram a mesma sorte), não, nunca mais. Diferindo dos regimes de força, governo Temer tem data para acabar. Se anteciparem saída (pode acontecer, levando junto o Jucá massacrador de Yanomamis, Lobão e outros ex-ministros de Dilma), Brasil passaria a ser presidido por Rodrigo Maia – grande troca. Alguns militantes declaram que precisa mudar tudo – mas nesse caso, não teriam que fechar o Congresso…? Legalidade é só para cobrar dos outros? Ah, sei, uma ilegalidade justificaria a outra. Ou então, preparar-se para disputar eleições – manifestações de “fora Temer” podem até contribuir para mobilizar, aproveitando inteligentemente a conjuntura democrática. Eu focalizaria uns temas institucionais. Reforma partidária, chega dessas alianças doentias entre partidecos. Desburocratização, esse pessoal, que reclama das investigações e processos em curso tinha que olhar como é na Inglaterra etc – até em países que parecem ainda mais frouxos que o Brasil a delação da Odebrecht está tendo consequências rápidas.

Mas não, essa gente só quer mesmo recuperar o poder, impor suas crenças político-religiosas (‘catecismos leigos’, onde li essa expressão – no Roberto Calasso, eu acho, ou foi no Octavio Paz?). Vale qualquer coisa, e o episódio Raduan Nassar é um triste exemplo.

Sobre Federico García Lorca por ocasião de mais uma efeméride, mais um 19 de agosto para lembrar seu assassinato em 1936

Homenagem a Frederico Garcia Lorca Flávio de Carvalho IMG_9147

Resolvi ilustrar com a escultura de Flávio de Carvalho homenageando-o, assim reunindo dois personagens notáveis – aquela mesma escultura depredada por fascistas brasileiros por volta de 1968, que ganhou de volta seu lugar na Praça das Guianas. Participei de manifestações pela recuperação da estátua, além de haver organizado homenagens a Lorca e publicado algo sobre sua vida e sua poesia.

Nunca esquecerei o susto que me provocou a descoberta do Poeta em Nova York – em 1961 ou 1962, eu estava em Poços de Caldas e fazia calor, havia comprado a edição da Losada. Poemas meus do período permanecerão engavetados, pois são epigonais, decalques do que havia lido. Quem me chamou a atenção para o Lorca de Poeta em Nova York foi, evidentemente, Roberto Piva – dizia passagens de cor, reunia amigos para leituras em voz alta, as marcas do Poeta em Nova York são evidentes em Paranóia e já escrevi a respeito.

Desta vez, reapresento o texto de uma palestra de 1998, que agora publico neste valioso Academia.edu. Este:

https://www.academia.edu/27896139/GARC%C3%8DA_LORCA_POETA_E_PERSONAGEM

Foi uma palestra que gostei de dar. Havia organizado um ciclo sobre Lorca na Biblioteca Mário de Andrade. Os espanhóis do Colégio Cervantes foram lá, gostaram do que eu disse e convidaram para seus “actos” por ocasião do centenário do poeta. Falei durante uma hora, sem parar. Sei que está algo desatualizada, que há mais desde Ian Gibson. Retomarei.

Alguma contribuição ao debate sobre “drogas”?

Normalmente, deixo passar mais algum tempo antes de postar ensaios já publicados no Academia.edu. Mas não resisti, por causa do retorno do tema– ou do debate sobre o tema, ou tanto faz. A propósito do exame de alguma descriminalização pelo Supremo e das conseqüentes manifestações, mais ou menos interessantes, mais sensatas ou insensatas, pertinentes ou extemporâneas. Este artigo:

https://www.academia.edu/15657655/A_cria%C3%A7%C3%A3o_po%C3%A9tica_e_algumas_drogas

É sobre criação poética e também em artes visuais – acho que consegui ser original – e toca apenas de raspão, tangencialmente, em seu status jurídico.

Pretendo retornar ao assunto. Desde já, como eu aprecio as palavras, gostaria que fossem bem tratadas por quem as usa. Por isso, declaro-me consternado por haver pessoas que defendem a necessidade da manutenção da “proibição” de drogas, ao mesmo tempo em que essas são vendidas em sistema de feira livre, transformando a vida dos moradores do trecho da Rua Peixoto Gomide entre as ruas Augusta e Frei Caneca em um inferno, além de outros lugares de São Paulo. Por exemplo, os calçadões do centro, pontos de encontro de alegres cocainômanos e maconheiros à noite. Assim como em outras metrópoles brasileiras, cidades, cidadezinhas e até povoados.

Uma sugestão: passeios turísticos que incluam a cracolândia. Chegando lá, o guia apontará o amontoado e exclamará: “Vejam! O resultado de algumas décadas de combate às drogas!”

 

“Fascista”, eu…? Algo sobre sectarismo e fanatismo, militância e ignorância, política e hipocrisia

  1. Ao divulgar sua entrevista com Augusto de Campos na mais recente edição da revista Cult, Claudio Daniel abriu seu post assim: “Trechos da entrevista que fiz com Augusto de Campos, publicada na edição de agosto da CULT. Enquanto alguns poetas — Ferreira Gullar, Claudio Willer — fazem coro com os fascistas, Augusto defende a democracia, o estado de direito e o mandato democrático de Dilma Rousseff. VIVA AUGUSTO — Sem média, sem mídia, sem medo.” Circula no Facebook: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=10207421905050076&id=1360873354&notif_t=close_friend_activity
  2. É uma canalhice. Na carona do interesse suscitado pela entrevista, veicula a difamação associando-me ao fascismo, chegando a leitores que nem sabem quem sou e quais são minhas posições políticas. E Claudio Daniel estava cansado de saber que não rezo pelo mesmo catecismo que ele. Entrevistou-me umas tantas vezes, escreveu sobre minha poesia, convidou-me para dar palestras e outras manifestações por sua conta e risco, nunca pedi. Assim como nunca comentei ele estampar fotos de soldados da Coréia do Norte como exemplo de resistência, nem a exaltação do Camarada Stálin como guia dos povos. Pobres dirigentes petistas, foi o que sobrou para apoiá-los, gente que pensa assim.
  3. Na eleição para prefeito de 2012 declarei voto em Carlos Gianazzi do PSOL. Já postei lamentando que Jean Wyllis e Marcelo Freixo não fossem de São Paulo para poder apoiá-los. Elogiei a brilhante atuação parlamentar de Ivan Valente na CPI do Petrolão, ajudando a mostrar que a sistematização da propina, como política partidária, começou mesmo em 2003. Mas não votei em Luciana Genro na eleição passada; achei-a fraca, repetidora de chavões. Tenho politizado palestras sobre literatura, valorizando a crítica de beats e surrealistas dirigidas tanto à sociedade burguesa quanto ao “socialismo real” soviético. Faço isso há décadas, como pode ser visto em meu Manifestos : 1964 – 2010 (editora Azougue, 2013). Nunca me converti, nunca virei o fio.
  4. Quando me manifestei sobre a brutal desocupação do Pinheirinho em São José dos Campos pela PM paulista, em 2011, perguntaram-me se havia aderido ao PSTU. Se fosse hoje, publicaria os mesmos comentários. Na época, proliferaram as invectivas ao governador de São Paulo, Alckmin, chamando-o de “fascista”. Não. Político provinciano, conservador e mal assessorado é uma coisa, fascista é outra. Uso demagógico de categorias políticas inutiliza-as.
  5. Lembro-me de uma palestra de Roberto Piva sobre Pasolini, em 1999, citando as análises do fascismo pelo poeta, pensador e cineasta para argumentar que o PT é um partido fascista. Pena não ter sido gravada e transcrita. Traços em comum: base sindical (lembrando que o fascismo de Mussolini começou como anarco-sindicalismo, combinado com defesas do estado forte como as de Sorel e afins) e a mobilização de movimentos sociais, possibilitando a Marcha sobre Roma – no caso brasileiro, equivalentes seriam, para Piva, MST e afins.
  6. Enigmas e mistérios: por que Lula não tentou perpetuar-se através do caudilhismo tão tipicamente latino-americano, centralizando o poder, subordinando instituições? Índole democrática? Pragmatismo? Falta de condições objetivas? Nem todos os companheiros estavam predispostos ao assalto ao poder? Foi freado pelas alianças com lideranças democráticas e oligarquias locais e regionais, que não estavam interessadas nisso? Vou tentar saber, perguntar para pessoas mais próximas a ele.
  7. Claudio Daniel rompeu comigo quando postei no Facebook o link de uma matéria do UOL discutindo impeachment de Dilma, em março deste ano. Tema tabu para alguns. Era um texto objetivo, cotejando pareceres de analistas políticos e juristas, para concluir que não era viável. Mas eu já achava que iria acontecer. Meteorologia é mais exata que política; e previsões do tempo não interferem nas nuvens e nos ventos. Mas me sinto como alguém que avisa que vem aí uma tempestade, e é acusado de ser a favor da tempestade e de acreditar no terrorismo midiático do noticiário do tempo.
  8. O argumento mais frequente contra a saída de Dilma: foi eleita com não sei quantos milhões de votos. Tem um bom antecedente literário: “Ao vencedor as batatas”. Mas o personagem que repetia isso estava louco, delirava. E aqui, entro no tópico “hipocrisia”. O sujeito do PC do B que me telefonou em algum momento da década de 1990 convidando-me a participar de um “fora FHC” agora é firmemente legalista. Alguns que se mobilizaram pelo impeachment de Fernando Collor de Mello em 1992, também. O jurista, em uma das reuniões logo após sua eleição, em 1990 (resultaram em um ciclo de palestras anti-Collor na PUC), que distinguiu entre legitimidade do poder e legitimidade no poder, para argumentar que o confisco justificaria impeachment. (Quem foi? Quem mais estava naquela reunião? Alguém se lembra?)
  9. Moralmente, chutar Collor se justificou pelo estelionato eleitoral ao garantir que não haveria confisco, e pelo procedimento durante a campanha, o episódio da filha de Lula e a edição do debate final pela Globo. Como a diferença de votos foi pequena, pode ser que isso tivesse feito a diferença. Moralmente, despachar Dilma e o restante se justifica pelo estelionato eleitoral: jurou que não haveria ajuste fiscal e política econômica recessiva, endossou uma campanha sórdida – até hoje, na Amaral Gurgel, está afixado o cartaz dizendo “eu não voto em quem bate em mulheres” com a foto de Aécio, além dos posts sobre ele usar cocaína e tal – um deles, o do Chico César ou atribuído ao Chico César, ironizei e isso me valeu insultos por símiles do Cláudio Daniel. Como a diferença de votos foi pequena, pode ser que essas artimanhas tenham decidido a parada. Fernando Henrique fez algo semelhante ao segurar Gustavo Franco e a insensata paridade do real e dólar, e só chamar o Armínio Fraga para endireitar aquilo depois de ser reeleito. Mas não difamou, não caluniou, não forjou dossiês sobre adversários. Ah, sim – privatizou, e isso alguns não perdoam: lamentam a enorme perda de empregos para a militância. Tiveram que multiplicar os cargos de confiança da administração direta e nas 140 estatais restantes.
  10. Outro argumento, os benefícios do governo petista para os pobres. Cito Augusto de Campos na entrevista da Cult: “Pouca atenção deu a mídia ao fato de que o Brasil conseguiu reduzir a pobreza extrema em 82% entre 2002 e 2013 e saiu do mapa mundial da fome, segundo atestado internacional da FAO.” Mas esse argumento, assim isoladamente, também justifica Adolf Hitler. Como vocês acham que ele se consolidou no poder? Só pelo ressentimento por causa da derrota alemão de 1918, pela propensão alemã ao autoritarismo e ao antissemitismo? Não. Chamou um economista brilhante, o banqueiro Hjalmar Schacht, que já havia segurado a inflação galopante de 1923 com um ajuste fiscal, e, com o apoio de Von Thiessen, junto com Ferdinand Porsche, os Krupp e outros magnatas, promoveu desenvolvimento econômico através de política industrial e obras de infraestrutura. Deu emprego e renda para os alemães. Melhorou os benefícios sociais – para quem fosse filiado ao partido, é claro. Isso, o bando de analfabetos políticos não sabe. Vão ler, vão estudar alguma coisa, em vez de repetir chavões da vulgata soviética ou da cartilha petista, reproduzindo os blogs “independentes” que recebem algum trocado do partido ou da SECOM para divulgar uma geopolítica de doido, explicando tudo pela intervenção do “imperialismo yankee”. Incrementar economia, Mussolini já havia feito isso na Itália e Hitler imitou. Roosevelt faria também, com o “New Deal”, assim como Juscelino aqui. Enfim, desenvolvimento econômico, crescimento da renda, melhora de benefícios sociais, em si, não justificam regime nenhum, e já consolidaram lideranças democráticas e os piores demagogos; já prepararam o terreno para avanços reais e para desastres.
  11. Melhora das condições de vida da população – sei… Os adeptos do “Ogro filantrópico”, para usar um título de Octavio Paz, fingem desconhecer que esses desvios de verbas públicas oneram os pobres, que são eles que pagam a conta. As obras faraônicas, quanto mais caras melhor para renderem mais propina, tipo Belo Monte e tantas outras, sempre intermináveis, sempre inconclusas, para reajustar os contratos, para faturar mais. Assim como o prejuízo ambiental – tópico que, para mim, por si só, justifica a defenestração de Dilma, que chamou para seu ministério a ideóloga do desmatamento. Ah, é porque precisa fazer alianças. Aí está outro argumento tipicamente stalinista. Fez aliança com Hitler, o pacto Molotov – Ribbentrop de 1939, que deu a luz verde para a invasão da Polônia, iniciando a Segunda Guerra Mundial.
  12. O futuro do país é perigosamente incerto, nessa altura. Difícil um pacto como aquele de 1992, do qual participaram lideranças políticas de verdade, Dr. Ulisses e afins. Isso também é legado petista , de seus aliados, dos seus apparatchiks, da base fisiológica, da militância obtusa. Justificam as mais implausíveis alianças. com o pior da política, como etapas no processo de emancipação do proletariado, de ascensão da classe trabalhadora, da inexorável marcha em direção à sociedade sem classes. Dizem que há retrocesso “na sociedade” – nada disso, eles é que são o retrocesso. Deviam ler algum livro bom, não só as cartilhas, a produção dos ideólogos do mais baixo escalão. Um Jorge Semprún, por exemplo – faz tempo que não se fala dele. A quantidade de autores que observa messianismo no marxismo ou em marxistas – crítica inicialmente feita por conservadores, Spengler e Heidegger, depois por autores difíceis de identificar a correntes, Octavio Paz, Roberto Calasso. Ou por John Gray, que critica em Missa Negra igualmente a esquerda marxista e os neo-liberais fundamentalistas tipo Bush, por acharem que estão enxergando o fim da história. Ou por um comunista de ninguém botar defeito, Jacob Gorender, com seu Marxismo sem Utopia (Ática, 1999). Alguma ampliação da cultura política, algum refinamento do debate ajudarão, em algum momento .

O resultado da repressão dos glutões pelos anoréxicos

Em tempo, acrescentado a 15/07: uma rodada a favor dos glutões. Suspensa a lei que proibe o ‘foie gras’, patê de fígado gordo de ganso, em São Paulo:

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/07/justica-suspende-lei-que-proibe-venda-de-foie-gras-em-sao-paulo.html

Matéria, esta da qual copio o link, tem observações corretas de ‘chefs’ sobre abates de animais muito piores e em escala muito maior que ninguém fiscaliza. Ainda não deu tempo, tenho estado muito ocupado, mas pretendo publicar extensa crônica de excessos alimentares e desvarios gastronômicos.

Subiu o consumo de produtos feitos de fígado gordo de ganso, conforme relatado na boa matéria do suplemento “paladar” de O Estado de S. Paulo:

http://blogs.estadao.com.br/paladar/a-procura-pelo-foie-gras-dispara-em-sao-paulo/

E continuará alta depois da previsível revogação dessa lei oportunista e inócua.

É o efeito paradoxal (na aparência) dos proibicionismos. Nunca se bebeu tanto como durante a Lei Seca.

Leiam atentamente. Matéria tem belas ilustrações, apetitosas. Destaco duas informações. Uma, este ‘box’ sobre os problemas reais que deveriam preocupar os defensores da boa causa da bioética e, principalmente, da alimentação saudável, pelo modo como são criados frangos, galinhas e porcos no Brasil:

http://blogs.estadao.com.br/paladar/vao-proibir-ovo-frango-e-porco/

Outra, que Califórnia e Chicago, citados como argumento pela fração totalitária dos vegetarianos, desistiram da proibição.

A propósito, em comentário no Facebook a meu post anterior, foi observado que animais sofrem, são “semiscientes”. Nesse caso, ostra eu posso continuar comendo? Mexilhão? Anoréxicos torcerão o nariz, farão cara de desgosto.

Voltarei ao assunto.

Em tempo: Faz anos que não como o patê. Nem a terrine, que me parece mais saborosa. Anteontem almocei no vegano da Pompéia, próximo à Heitor, o Alcaparra. Vou lá com frequência, mandioca frita deles é das melhores, entre outras boas coisas. Em compensação, hoje devorei o que vi pela frente no bufê do Viena no Cj. Nacional. Questão não é de preferências, mas de princípios – os mesmos que fizeram que eu me insurgisse contra a proibição da “marcha da maconha” embora não use (há muito tempo…), ou publicasse o poema de sodomia explícita de Ginsberg em resposta á homofobia, mesmo sendo hétero.

Um impeachment, algumas premonições e uma foto que desejo recuperar

Nela, nessa foto, estou em uma passeata pelo impeachment de Collor. Saiu na Veja São Paulo, em algum momento do segundo semestre de 1992 – em setembro…? Se alguém a tiver ou souber acessá-la, agradeço. Infelizmente, não guardei, se a houvesse conservado, bastaria passar no scanner.

Estive em muitas reuniões e outras manifestações anti-Collor, inclusive aquela do Anhangabaú, quando ouvi Lula e outras lideranças discursarem. Essa em que fui fotografado, participava de um encontro de entidades culturais na Câmara Municipal, ao término saiu a manifestação convocada, se não me falha, pelo Sindicato dos Artistas, o ator Perry Salles pegou meu braço e me postou na linha de frente, na primeira fila. Fomos até o Municipal. Não reparei, mas a TV Globo também cobria. Ao chegar em casa, encontro a vizinha algo desentendida no elevador: “Eu vi o senhor na televisão…!” Perguntou: “O senhor é do PT..?” Não lembro qual foi minha resposta irônica, “Nem tanto”, “Às vezes”, “Talvez”, “Não sei”, algo assim.

– X –

Madrugada deste domingo, dia 05/07. Sonhei que Dilma Rousseff era destituída. Apareciam uns rapazes de uniforme cinza claro com braçadeira ou alguma insígnia vermelha – pareciam confederados norte-americanos, bem jovens. Liderava-os uma “Deles Ortiz”. Acordei tentando lembrar-me: quem seria “Deles Ortiz”? – artista? amiga de Facebook? Consulto o Google: é Delia Ortiz, a jornalista da Globo que fez a cobertura do impeachment de Collor. Imaginem só – o que o inconsciente guarda…! Na época, não prestei atenção em nomes dos jornalistas da TV que cobriam aquela mobilização.

Governo Dilma acabou, dou por encerrado. A pergunta agora é sobre o modo através do qual será retirada. Preocupa-me a bagunça que vem aí. Na destituição de Collor havia uma aliança de forças políticas bem definida, uma espécie de arco progressista com Dr. Ulisses, outros peemedebistas históricos, Lula e petistas, Montoro, Covas e outros tucanos. E um vice excêntrico que se mostrou viável, Itamar. Agora…. agora, o fisiologismo desenfreado e a liderança o populismo reacionário de Eduardo Cunha e afins. Nem os tucanos conseguem somar-se. Serra e Alckmin competem com Aécio, também querem… Se não houver algum entendimento, algum pacto de governabilidade, será o caos. Além disso, Collor foi uma excrescência – ainda é. PT é grande, tem história, bases, colapso terá características de um desastre.

– X –

Sonhos premonitórios? Todo mundo tem. Da torrente de produção simbólica durante o sono algo se ajusta, de um modo mais ou menos direto, aos acontecimentos. Fico com Freud: sonho é realização delirante de um desejo. O que se expressava através de meu sonho? Desejo de que Dilma seja destituída? Não, essa não merece um sonho. Aparecer como assunto de sonho corresponde ao que Freud designou como “restos do cotidiano”. Em breve, restos ou sobras da história. Sonhos não traduzem o óbvio. Desejo de retornar a 1992? Pode ser. Período intenso aquele, de 1990 a 92. Causei, agitei a propósito de Collor. No dia em que Ipojuca Pontes (seu infame secretário de cultura) caiu, a TV Cultura veio em casa, gravaram-me festejando, tripudiando.

Quando Collor tomou posse em 1990 e baixou o pacote de medidas econômicas, publiquei página inteira no Jornal da Tarde argumentando que não chegaria ao fim do mandato. Também sustentei que os discursos de Collor e Lula eram equivalentes, fundados no ressentimento. Petistas inteligentes elogiaram. Essa matéria eu tenho, guardei, vou passar no scanner e reproduzir aqui. Não precisei sonhar para antecipar o que viria.

– X –

Postei no Facebook o link para o caderno do Estadão “Favela Amazônia”. Este: http://infograficos.estadao.com.br/public/especiais/favela-amazonia/ Terrível. Governante que dá ensejo a coisas assim merece rejeição e defenestração. Já argumentaram, em resposta a minhas postagens ambientalistas e em favor de índios, que governos petistas reduziram miséria. Não percebem que degradação do meio ambiente acarreta um custo, um enorme prejuízo, uma conta paga pelos mais pobres? Que devastação agrava a desigualdade social? Alguns se beneficiam; maioria é prejudicada, direta ou indiretamente. Obviamente, isso também é verdade com relação a desvio de dinheiro público. Devastação e corrupção confluem em empreendimentos como a usina de Belo Monte, a cargo de Odebrecht e afins.

Continuo querendo saber o que Délia Ortiz veio fazer em meu sonho. Enigmas e mistérios. Torço para que achem a foto de 1992, poupando-me de ir até a editora Abril. Ou então, vou lá – alguém me daria carona?

Venezuela: estive lá. E faz algum tempo pretendia postar isto

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A foto foi tirada em Barinas, terra natal de Hugo Chávez. Agradeço a Élida Lima, agente cultural local. Participava do Festival Mundial de Poesia, 17 a 23 de julho de 2006.

Foram seis belos dias. O teatro Teresa Carreño, equivalente local do Municipal, em um parque, ao lado de um museu, lotado, público atento para ouvir 54 poetas, 28 da Venezuela e 26 de outros países. Havia até da Austrália, China e Japão. Organização exemplar. Monitores bilíngües para nos acompanhar. Hotel Hilton Caracas, dos melhores 5 estrelas em que estive. Política cultural de qualidade: deu para comprar bons livros, baratos, publicados pela Monte Ávila e El perro y la rana. Minha participação está em uma bela antologia: 3er Festival mundial de poesía – Venezuela 2006, Fundación editorial el perro y la rana, Caracas, maio de 2007.

Hoje não é mais assim. Dinheiro acabou. Festival continua, mas na base do voluntarismo, não conseguem oferecer passagens, infraestrutura e “viático”, como denominam o cachê. Hilton foi estatizado, piorou. Boas editoras como a Monte Ávila, encampadas, não têm mais distribuição.

Desconfiado de que chavismo seria mais um caudilhismo latino-americano, cheguei avisando que não estava disponível para propaganda. “No firmo nada”, disse para os organizadores, simpaticíssimos, hospitaleiros. Até um manifesto anti Bush eu recusei assinar, mesmo havendo encabeçado o manifesto brasileiro quando invadiram o Iraque. Escolhi poemas de intimismo lírico; podia ter apresentando algo como os que lia nas manifestações contra os militares na década de 1970. Apreciaram, aplaudiram-me com entusiasmo. Leitura do original com a projeção da tradução em espanhol ajudou. Que pena não haver registro digital.

Mas foram recebidos friamente poetas querendo ser arautos de uma revolução, com textos gotejando o sangue de mártires da militância. Algumas apresentações, não vaiaram mas não se deram ao trabalho de juntar as palmas das mãos para fazer ‘clap clap clap’. Soube depois que público era composto por estudantes universitários; opunham-se a Chávez e logo sairiam às ruas em protesto contra a expropriação da emissora de TV de oposição.

Passeei. Fiz compras, daquelas inevitáveis quando se viaja. Fui de metrô ao centro de Caracas, parecido com o Tatuapé no trecho da Radial até a praça Silvio Romero. Tudo no shopping era importado. Levei meias e cuecas da Lupo, camisa chinesa, colônia francesa. Nenhum produto venezuelano. Na rua, muro grafitado com dizeres de que capitalismo mata não sei quantas crianças por minuto em letras pretas, bem grandes.

Além de Caracas, participantes apresentavam-se em outras localidades. Podia ter-me cabido um desses lugares sensacionais da Venezuela, como Mérida, nos contrafortes andinos e com a cachoeira mais alta do mundo, ou Maracaíbo, com o enorme lago à beira mar. Coube-me Barinas. Foi uma viagem no tempo, qualquer coisa como ir parar em Presidente Prudente em 1950. Hotel, prédio de 1930, por aí, reformado para que os quartos tivessem banheiro. Apresentação acabou sendo em Pedraza, a uns 60 ou 70 km, possibilitando ver mais do país. Barinas tem mais de 300.000 habitantes e fica na parte agriculturável da Venezuela. Vi campos vazios, pastagens onde despontava algum solitário boi ou vaca. No aeroporto, um balcão em que vendiam queijos feitos na região.

Venezuela é um país maravilhoso. Tem montanhas andinas, selva amazônica, litoral deslumbrante, grandes extensões de terra para agricultura. Mas não produz nada, não planta nada, não fabrica nada. Culturalmente avançada, porém economicamente atrasada. Mantém-se com a exportação de petróleo. Até a carne bovina é importada do Brasil. Antes, oligarquias ficavam com a receita do petróleo, distribuíam-na entre seus pares e gastavam em obras públicas, rasgavam autopistas em Caracas – uma delas, logo atrás do ex-Hilton, impossibilita acesso a pé a uma reserva florestal, coisa típica de sociedade muito desigual, estratificada, um planejamento só para usuários de automóveis mas que nunca impediu os “paros”, os enormes congestionamentos. Com Chávez e o bolivarismo, passou-se a distribuir uma parte para os pobres. Penso que deixaram de assimilar algumas lições brasileiras, nossos mecanismos para promover desenvolvimento, BNDES, EMBRAPA, INCRA, crédito rural conjugado à ameaça de ocupação pelo MST, obrigando proprietários a produzir. Chavistas hostilizam a economia de mercado e o capital privado, mas não criaram alternativas. Sequer tentaram replicar o modo soviético, investimento em produção via planejamento central. Comentei com Floriano Martins – indicou-me para aquele festival e me publicou em uma boa antologia venezuelana de surrealismo, Un nuevo continente – que, quando a cotação do barril de petróleo caísse, seria o caos. Não deu outra. Hoje, filas para comprar comida, faltam bens de primeira necessidade, inflação e desemprego crescem. Resposta do regime é endurecer, fechar-se mais. Prendem opositores, mataram manifestantes, intervieram na mídia. Há gente que gostaria de resolver desse modo aqui.

E agora arrumaram um incidente diplomático de graça, de pura bobeira. Deixassem os senadores brasileiros ir lá, ver os presos. Consequências do que fizeram irão complicar mais ainda para eles. Pode dificultar permanência no Mercosul. (Em tempo, postado alguns dias depois: parece que a iniciativa valeu como pressão, conjugada a outras visitas e manifestações, pois o governo Maduro marcou data de eleição e a libertação de alguns opositores, presos políticos, está sendo anunciada)

Evito generalizar. Governos da tendência bolivarista não acarretam obrigatoriamente catástrofes. Situação da Venezuela difere do que se passa no Equador ou Bolívia. O equatoriano Correa é autoritário mas parece saber administrar. Não obstante, o contraste de Venezuela e Colômbia é interessante. Estive na Colômbia, em outro festival de poesia esplêndido, o de Medellín em 2010. Uma bela cidade, uma região maravilhosa. O esplêndido museu (apresentei-me em uma das salas), a praça com os Botero, quantidade de bibliotecas e auditórios para ler poesia, parques e passeios. Tomei metrô e o famoso teleférico. Nem tudo é assim, é claro: para voltar do mercadão varejista, o “minorista”, ao hotel, recomendaram-me pegar táxi por segurança. Mas conversei com pessoas muito satisfeitas com a melhora da situação colombiana nos últimos anos, disseram-se aliviados por não deparar com cadáveres ao dobrar a esquina. Foi conseguido através da submissão aos Estados Unidos, dirão sectários. E daí? O que importa mais, o bem estar da população ou afirmar autonomia a qualquer preço? Competência, qualificação para governar, não são variáveis decisivas, em um ou outro caso? Discursos não movem nações.

A propósito de grandes festivais de poesia – há muitos, além de Medellín e do que havia em Caracas: precisamos de algo assim no Brasil. Proliferação de festas literárias é positiva, apesar da nota dissonante pelo encerramento da Jornada de Passo Fundo, o mais produtivo dos eventos dessa categoria. Mas a apresentação ao vivo de poetas é outra coisa. Forma leitores e ouvintes. Sequer é antagônica com relação ao mercado editorial: em Caracas e Medellín, livros eram vendidos e circulavam. Fica a sugestão. Disponho-me a colaborar.